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sábado, 14 de dezembro de 2013

A filósofa Marcia Tiburi fala sobre a Caixa de Perguntas

A CAIXA DE PERGUNTAS

O abandono da educação brasileira é uma das questões sociais mais graves que experimentamos hoje em dia. Pouco podemos fazer enquanto governos projetam seu ódio contra o povo também por meio da educação: contra os jovens, as crianças e o futuro. Os resultados históricos são previsíveis num país que já vive em seu tempo presente os efeitos do desprezo pela educação que nasceu no passado ditatorial brasileiro. Que a ditadura tenha sido introjetada por tanta gente e seja hoje uma constante cultural exige nossa atenção mais delicada.
No meio desse quadro triste, em que a profissão de ensinar, em que a experiência da aprendizagem e da formação são mortas diariamente às pauladas, surgem no entanto, luminosidades que nos alegram. A alegria é um ápice de esperança, aquela que a gente sente quando alguma coisa faz sentido e melhora o mundo onde vivemos.
Uma dessas alegrias é o livro “A Caixa de Perguntas, desafio vivo em sala de aula” (Ed. Libretos, 2013, 148 p.) de Elenilton Neukamp, professor da rede pública de ensino de Porto Alegre, mestre em educação pela UFRGS e autor de outros dois livros. A única coisa de que me orgulho na vida é dos meus alunos e fico muito feliz em dizer que Elenilton passou pela minha sala de aula sempre trazendo lindas questões, lindos textos. Dessas pessoas inesquecíveis que a gente agradece a sorte de ter encontrado.
O livro é um relato de experiência pedagógica com filosofia. Como a disciplina de filosofia é ainda muito recente no ensino fundamental e médio dificuldades fazem parte da coisa mesma: Como ensinar filosofia? O quê ensinar? Como chamar a atenção dos alunos para a experiência do pensamento? Como ajudar os garotos a se interessarem pelos conteúdos do conhecimento, de ética, de estética? Não há professor de filosofia que não se coloque estas questões quando tem diante de si crianças e jovens num contexto de crise geral – política e cultural – da educação. O professor de filosofia sabe que sua aula precisa da alegria do pensamento, a força revolucionária que faz pensar, logo, a aula tem que ser uma “boa” aula. A aula de filosofia é sempre um momento muito especial porque é sempre uma aula sobre o cerne da experiência da vida que mora nos atos de pensar, sentir, discernir e compreender. Toda aula de filosofia transita nesse quadrado mágico feito da básica matéria do ato esclarecido a que damos o nome de filosofia.
Elenilton inventou um método para trabalhar com esse universo. Só que ele pretendia uma aula muito democrática na qual todos tivessem, de algum modo, voz. Uma aula em que o comprometimento e o engajamento eram a aposta a pagar. Assim, ele inventou a caixa para que todos pudessem perguntar o que quisessem, do modo como quisessem. A caixinha, em princípio usada em uma turma, ficou famosa na escola e Elenilton foi convocado a usá-la até com as turmas de adultos nas quais também leciona.
Sem identificação, sem nomes de pessoas e sem ofensas pessoais, as perguntas criaram vida própria: a vida das ideias das quais vive uma aula de filosofia.
A partir daí o livro “A caixa de perguntas” conta sua própria história. Um capítulo impressionante traz uma lista das próprias perguntas que vão desde questões sobre sexualidade até perguntas sobre Deus. O modo como os estudantes as redigem, são um caso a parte que, sinceramente, só lendo pra ver. Mas dou aqui 3 exemplos da diversidade que pode surgir no uso de um método como este:
- Por que Deus quis “inventar”o mundo?
- Por que a maioria dos profes são chatos?
- Ter os dentes tortos influencia na hora do beijo?
Recomendo o livro a todos os professores de filosofia de todas as etapas escolares. Mas também sugiro a leitura às pessoas em geral, independentemente de suas idades e profissões. A carência de pensamento entre nós está fundada em um vasto complexo social e cultural, mas tem ligação direta com o medo de pensar, devido à sua proibição (muitas vezes surgida nas próprias faculdades de filosofia em que professores são controladores do que se pode ou não dizer). É este medo/proibição que produz a vergonha de pensar e de falar. Esta vergonha que a aula de filosofia pode ajudar a mudar, porque a aula de filosofia é o lugar onde se aprende a falar e, sobretudo, a ouvir.
A Caixa de Perguntas é um presente nesta época em que a sala de aula é um verdadeiro tédio para a maioria dos alunos. Mas também para muitos professores que se sentem perdidos diante do que fazer com crianças e jovens que trazem da cultura e da família aquele desprezo pela educação que, infelizmente, em nosso precário cenário, ainda precisamos como professores e cidadãos combater todos os dias.
No quadro da miséria material e espiritual oferecida pelos governos e pelo capitalismo que transformam a educação em problema bancário, a “Caixa de Perguntas” é a generosidade que combate a avareza, a alegria de pensar que combate a ignorância.
Só posso desejar boa leitura.
*Para quem quiser acompanhar o Elenilton: http://eleniltonneukamp.blogspot.com.br

Publicado em 14/12/2013, no blog da Marcia Tiburi no site da Revista CULT

domingo, 27 de outubro de 2013

Caixa de Perguntas - depoimentos

Já que este é o ano da Caixa de Perguntas, aí vai o primeiro vídeo com depoimentos sobre esta experiência..





domingo, 16 de dezembro de 2012

Fanzines no Dolores - 2012

Vídeo com os depoimentos e imagens das aulas de Filosofia no Dolores em 2012.
Turmas de C10 e C20.


Espero que vocês curtam.
Bom final de ano para todos/as e
aproveitem as férias para LER...

abração,
professor Elenilton.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Vídeo fanzines em 2011

Montei este vídeo no último domingo. Ele apresenta imagens da criação dos fanzines em nossas aulas em 2011. Os fanzines são com as turmas de C10, e as imagens gerais de turmas são em geral das C20.



quarta-feira, 30 de março de 2011

Memórias de estudante


Eu era da turma 52. O ano era 1984. Andava um pouco solitário, triste. Meus pais recém haviam se separado. Um para cada lado, e eu para lado nenhum. Lembro-me bem que minha calça era de tergal, daquelas azuis feias de uniforme de colégio. Não era muito raro eu andar com ela suja e percebia que algumas colegas faziam comentários maldosos sobre isso. Teve um dia que caí num valo e não pude ir à aula porque ela estava molhada. Tive que ficar embaixo dos cobertores...

Como era bom quando faltava um professor! Fazíamos uma festa! Tinha uma professora que gritou comigo várias vezes, eu odiava a aula dela e por isso não entendia nada da matéria. Uma outra debochou de mim quando eu disse que havia faltado no dia anterior por causa da enchente. Ela devia morar no outro lado da cidade para não saber do que nós sofríamos com as enchentes... Arremangar as calças até os joelhos e pôr os pés na água gelada, no inverno, às sete da manhã para ir pra aula definitivamente não é para qualquer um. Minhas professoras, por muito menos, deixavam de ir para a escola.

Até a quarta série eu era considerado um aluno exemplar, com direito a ler em público nas datas em que o colégio dava um cachorro quente e um copo de “ki-suco”. Não entendia muito o que estava lendo, mas as professoras gostavam. Minhas notas eram altíssimas, porque no colégio eu fugia dos problemas de casa. Nesta época me fizeram odiar o hino. Éramos obrigados a cantar uma coisa que nem entendíamos o que significava. O pior foi quando a diretora me chacoalhou e gritou “canta!”. Obrigavam a gente a marchar da vila até o centro da cidade, como se fôssemos soldadinhos de chumbo. Eu odiava isso.

Na quinta série uma vez levei uma suspensão. Briguei no recreio. Um olho ficou umas três vezes maior que o outro. Assinei o “livro negro”. Depois daquela briga percebi como é estúpido bater em alguém, como é estúpido apanhar também. Que grande bobagem! Minhas notas caíram mais que a confiança do povo nos políticos. Um dia apareceu escrito numa prova: “Você regrediu muito”. Fui direto para o dicionário, não sabia o que era regredir. Já era a segunda vez. Outro dia a professora de Português tinha me dito isso e eu achei graça. Ela ficou brava porque pensou que era deboche, mas eu estava rindo daquela palavra esquisita.

Na sétima série minha turma era a 71. Estudávamos pela manhã. No primeiro e no segundo bimestre não entendi nada do que estava acontecendo. Tirei vários “zero” nas provas. Marquei um encontro com uma menina para o último dia antes das férias de inverno. O nome dela era... bom, creio que não há necessidade de dizer o nome dela, não é? Acontece que no dia choveu. Eu fui até a escola, mas fiquei numa área coberta do lado de fora do portão. Esperei a tarde inteira e ela não apareceu. Meses depois soube que ela também passou a tarde suspirando e me esperando, só que do lado de dentro do portão...

As férias e a preguiça me acostumaram a dormir demais e a ler “de menos”. As aulas recomeçaram e eu não aparecia no colégio. Umas duas semanas depois, foram na minha casa me procurar. Mas não eram daquele colégio e sim do que eu estudava antes (chamado Mário Sperb). A dona Líria, uma orientadora educacional que atendia no SOE, mandou me chamar. Nem quis minhas explicações, foi logo me matriculando numa turma do noturno. Eu tinha treze anos e estava começando a trabalhar, cuidava de um estacionamento de uma farmácia. No ano anterior tinha sido vendedor de picolés.

Os professores e professoras eram diferentes, conversavam com a gente sobre qualquer coisa. Fui muito bem recebido e me aceitaram como eu era. Meus colegas eram mais velhos do que eu, e com eles aprendi a ouvir as pessoas mais velhas que têm muito mais experiência de vida do que a gente... O que fico me perguntando é o que teria acontecido comigo se ninguém tivesse me procurado, me ajudado. Com certeza hoje não seria professor e nem teria o prazer de conhecer as pessoas que agora lêem essas palavras, e que são para mim uma grande família.

Mas que grande falador sou eu. Lembrei de tantas coisas, falei tanto, mas o que eu queria mesmo era dizer pra você: aproveite bem o tempo que você passa aqui. A escola é um lugar onde a nossa vida acontece, onde a gente aprende coisas importantes e conhece pessoas. Meus amigos que abandonaram a escola quando eram adolescentes, hoje se lamentam e se arrependem. Espero que você saiba aproveitar este momento único da vida. O mundo precisa de pessoas que lêem e pensam, porque do jeito que as coisas estão não dá mais.


Elenilton Neukamp

sábado, 13 de novembro de 2010

O que é a Filosofia?

Gostaria de iniciar este pequeno texto lembrando de uma grande inimiga que estou acabando de destruir e afastar de mim. Ela me causou um mal danado, difícil de esquecer e impossível de perdoar. Posso até dizer que ela fez de mim o que quis, usou meu corpo como quis, me deixando preso à cama e febril. Inclusive, ajudou a perturbar o início das aulas. Desgraçada! Não tem telefone, endereço, nem profissão e, o que é pior, é invisível a olho nu. O nome dela é Escherichia coli. Uma bactéria maldita que instalou-se e só foi expulsa com metralhadas antibióticas. O bombardeio foi grande!
Somente um humano mesmo para pensar estas coisas, para falar de um bichinho microscópico como se fosse outra pessoa. Nenhum outro animal tem essa capacidade. Um cachorro atacado por um vírus nunca irá entender o que se passa. Vai morrer ou ser salvo mas, no máximo, abanará o rabo: ele não se sabe.
Então, aí vai uma primeira constatação. Somos seres diferentes dos outros animais. Nós raciocinamos, refletimos, não aceitamos as coisas simplesmente como elas surgem à nossa frente. Não ficamos parados, doentes, sem fazer nada contra uma infecção, por exemplo. Nem tampouco abanamos o rabo se ficamos curados, porque não temos um. Na falta dele nós sorrimos, mas sempre porque temos motivos para estar contentes, e não como os cães, que saem abanando para qualquer um...
Mas, e a Filosofia, o que tem a ver com isto? No fundo, a Filosofia tem relação com tudo o que é humano. Mas, vamos com calma.
Se fosse há milhares de anos atrás, provavelmente uma doença seria vista como um castigo dos deuses, uma bruxaria ou algo parecido. As pessoas se utilizavam dos mitos para explicar tudo, quer dizer, justificavam com as crenças o que acontecia na vida delas. Por volta dos séculos VI e V antes de Cristo (a.C.) começa a ser construída na Grécia uma nova forma de pensar que foi chamada de Filosofia.

Esse novo pensamento, essa nova atitude, já não se contentava mais com as velhas explicações. Procurava a verdade através da razão, de explicações racionais. Assim, por exemplo, ao invés de aceitar uma doença como uma fatalidade do destino, começou-se a perguntar: mas, afinal, por que ficamos doentes? O que é uma enfermidade? Quais as causas disto que estou sentindo? O que é a saúde? Ou ainda, indo mais longe: se as enfermidades não deixam tão tristes, o que podemos fazer para reencontrar a alegria e a felicidade? O que é a felicidade?
Então, uma primeira resposta à pergunta “O que é a Filosofia?” pode ser esta: a decisão de não aceitar como óbvias e evidentes as coisas, as idéias, os fatos, as situações, os valores, os comportamentos da nossa vida cotidiana. Jamais aceitar o que se passa sem antes haver investigado e compreendido. O que é? Por que é? Como é? Essas são perguntas fundamentais para a Filosofia.
Para a Filosofia, tudo pode ser alvo de questionamento. Nada mais é visto como “normal”. Por isso o medo que ela causa aos poderosos: se as pessoas começam a filosofar, não aceitam mais ser tratadas como objetos. A verdade pode ser buscada por qualquer pessoa, não pertence mais à meia dúzia de “sábios” ou “doutores”.
Dessa atitude de se interrogar surge a reflexão filosófica, que é radical, ou seja, vai até a raiz do problema. A reflexão filosófica é tão profunda que começa se perguntando como é possível que a gente pense. Veja que isto não é nada simples. E qualquer resposta dada muda todo nosso jeito de ver o mundo e de agir nele.
Mas... como eu disse antes, vamos com calma. Estamos apenas começando. Iniciando uma busca que nunca terá um fim, porque, como disse o filósofo Immanuel Kant, “não se ensina Filosofia, ensina-se a filosofar”.

Elenilton Neukamp
professor de Filosofia